Não Julgueis ! – Pr. Christian lo Iacono


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nao julgueis

É fato que a utilização dessa advertência está em alta, especialmente entre cristãos. O uso da expressão se verifica nos mais diversos discursos, textos, conversas, comentários em redes sociais etc. Numa sociedade pós-moderna, que se apresenta relativista, “tolerante”, plural, politicamente correta, talvez não haja fala mais oportuna e simpática do que esta: “não

julgueis!” Quando temas de compreensão até então tradicional como a família, a sexualidade, o uso de drogas, o aborto sofrem amplo e irrestrito questionamento, nada melhor do que a mordaça do “não julgueis” para imunizar os detratores. Por outro lado, os que defendem que a medida oposta é que é a necessária, ou seja, que nunca antes talvez foi tão importante julgar entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, no seu afã de defender a verdade a qualquer preço, por vezes se excedem nessa empreitada, indo ao extremo oposto, quase invocando fogo do céu para torrar os hereges. Foi essa visível tensão que me levou a escrever sobre o tema.

Ora, a referida advertência vem das Escrituras, tendo sido proferida pelo próprio Jesus:
“1Não julgueis, para que não sejais julgados. 2Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também.
3Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? 4Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? 5Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão” (Mt 7.1-5, ARA).

Tolstoy chegou a sustentar que Cristo, a partir desse texto, estaria proibindo a instituição de qualquer tribunal legal. Parece que ele esqueceu que na mesma Bíblia, Paulo, ao descrever especificamente o trabalho dos magistrados, ou seja, seus julgamentos, se refere a eles de maneira bem positiva, como um serviço prestado a Deus e que não deveria ser dispensado (Rm 13). Ora, é evidente que um juiz, ao julgar, analisa, escuta, lê, discerne, ou seja, examina o que está sob julgamento. Será, então, que o ensinamento de Jesus estaria sugerindo que fôssemos na direção contrária?

Parece claro que não. Jesus não está sugerindo nesse texto que não devamos fazer uso de nossa capacidade humana de crítica. Primeiro porque isso não seria honesto de nossa parte, pois teríamos que fingir que não estamos vendo ou entendendo determinadas coisas. Essa atitude favoreceria a hipocrisia. Em segundo lugar, penso que essa postura seria uma contradição à imagem e semelhança de Deus refletidas no ser humano. Desde o princípio o homem recebeu a capacidade de fazer julgamentos morais, de escolher entre o certo e o errado, entre o bem e o mal. Além disso, é evidente que os ensinamentos de Jesus pressupõem algum nível de capacidade crítica por parte de seus ouvintes. Quando somos orientados a não agir como os gentios, por exemplo, é preciso saber como eles agem e adotar uma postura diferenciada. É claro que o julgamento está implícito numa ação dessas. Quando Jesus mesmo se refere aos “cães” e aos “porcos” (Mt 7.6), ou aos “falsos profetas” (v. 15), será que é possível saber quem são esses agentes senão através de nossa capacidade de compreensão, de julgamento? No versículo 16, por exemplo, Jesus ensina que os falsos profetas por fora parecem ovelhas, e que pelos seus frutos eles poderão ser conhecidos. Pois bem, parece que somente através de seus frutos poderemos discernir, julgar, se tais pessoas são, ou não, falsos profetas. Ora, Jesus também disse: “não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça” (Jo 7.24). Parece evidente, portanto, que Jesus não está sugerindo que não devamos exercitar nosso juízo no capítulo 7 de Mateus. Mas, afinal, qual é o sentido do texto então?

Parece que o que Jesus reprova aqui é a atitude condenatória do ser humano, aquela postura negativa daquele cuja função é apenas descobrir os erros dos outros, aquela atitude destrutiva em relação ao próximo. É aquela postura hipercrítica que sempre imagina o pior quanto às intenções dos outros e quer acabar com seus planos. Essa pessoa acaba assumindo literalmente o papel de juiz, colocando-se, assim, numa posição errada, e também colocando os outros na posição errada: “quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai” (Rm 14.4). Ora, Paulo ensinou: “nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações” (1Co 4.5). Portanto, o ser humano não é Deus para se colocar em seu lugar. O problema é que por detrás de um julgamento crítico nem sempre está a motivação correta. Basta nos lembrarmos dos discípulos de Jesus que, rejeitados pelos samaritanos, queriam pedir que descesse fogo do céu para consumir o povoado. Jesus os repreendeu dizendo: “não sabeis de que espírito sois. Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lc 9.54-56). Às vezes essa atitude condenatória em relação aos outros se dá, inclusive, quanto a questões menores, periféricas no reino de Deus, e que não trazem benefício algum para ninguém. Nesse sentido, Paulo chegou a escrever: “não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de não pordes tropeço ou escândalo ao vosso irmão… Se, por causa de comida, o teu irmão se entristece, já não andas segundo o amor fraternal… Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.13-17). O julgamento condenatório que Jesus critica aqui é aquele que se sobrepõe ao julgamento que se dará naquele Dia e que usurpa a prerrogativa do Juiz divino. É quase brincar de Deus!

E a consequência “para que não sejais julgados”, o que significa? Bom, é fato que a salvação eterna daquele que crê em Cristo como seu Salvador está assegurada para os filhos de Deus. Afinal, isso se dá pela graça de Deus em Cristo, por meio da fé somente. A justificação pela fé não impede, ainda assim, que Deus nos julgue aqui na terra, como fez, por exemplo, com os coríntios que tomaram a ceia indignamente, ao não discernirem o corpo de Cristo. Ali alguns enfermaram e adoeceram, embora Paulo tivesse advertido que o julgamento talvez seria desnecessário se eles tivessem julgado a si próprios (1Co 11.29-32). Fato semelhante parece ter sido registrado também em 1Co 5.1-5. Além disso, não podemos esquecer que existe um tipo de julgamento que nos aguarda com relação ao galardão, de acordo com a obra de cada um (1Co 3.12-15).

Já o versículo 2 do capítulo 7 parece indicar que não podemos invocar a ignorância da lei que reivindicamos ser capazes de administrar aos outros. “Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas. Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que praticam tais coisas” (Rm 2.1-2). O mesmo princípio parece estar expresso em Tg 3.1: “não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo”. Portanto, em nossa atitude de julgamento de uns para com os outros devemos ser empáticos, generosos, utilizando-nos da crítica construtiva, apreciativa, e não da crítica destrutiva ou depreciativa.

Nos versículos 3 e 4, Jesus denuncia a hipocrisia que manifestamos em relação aos outros. Ou seja, nos preocupamos com os outros e não lidamos com os nossos próprios problemas, às vezes mais sérios! A imagem que Jesus tem em mente indica o quão ridícula é essa postura de ficar procurando problemas no outro quando nós mesmos não enxergamos o suficiente para fazer uma avalição adequada desse outro. É como a ação de um oculista cego tentando ajudar alguém com dificuldades em sua visão (Martyn Lloyd-Jones). O que se vê aqui é a tendência humana, pecaminosa, egoísta, de dar maior dimensão aos erros dos outros e de suavizar os próprios. “Acabamos vendo os nossos erros nos outros e os julgamos vicariamente; assim, experimentamos o prazer da justiça própria sem a dor do arrependimento” (John Sttot).

No versículo 5, essa hipocrisia, a pior possível, tem aparência de bondade – pois a pessoa realmente quer tirar o cisco do olho alheio –, mas, na verdade, ela acaba inflamando é o próprio ego mesmo. A. B. Bruce escreveu: “a condenação é o vício farisaico de nos exaltarmos amesquinhando os outros, um modo muito baixo de obter superioridade moral!” Talvez a parábola do publicano e do fariseu exemplifique isso muito bem, quando, ao introduzi-la, Lucas escreve: “propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lc 18.9). Ora, “se examinássemos primeiro a nossa consciência, nós não seríamos julgados pelo Senhor. Mas somos julgados e castigados pelo Senhor, para não sermos condenados junto com o mundo” (1Co 11.31-32, NTLH).

A proibição de se ter uma atitude condenatória e uma postura hipócrita em relação aos outros, entretanto, não nos isenta da responsabilidade de irmãos na fé pela conservação da verdade, especialmente no que se refere ao evangelho de Jesus Cristo, a razão de ser da igreja cristã, ainda de acordo com esse versículo 5. Isso implica, sim, em fazermos bom uso de nossa capacidade de discernimento, ou julgamento, das situações que nos cercam e que envolvem, por vezes, nossos irmãos em Cristo, espalhados em diferentes denominações cristãs, ou mesmo pertencentes a uma mesma congregação cristã. Quando Paulo escreveu aos coríntios, por exemplo, ele criticou a omissão deles porque estavam se associando com pessoas que se declaravam irmãos mas mantinham certas práticas pecaminosas. Nesse caso, Paulo escreveu: “pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro? … Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor” (1Co 5.11-13). A partir desse caso, embora bem específico, podemos ver que Paulo não apregoa uma tolerância irrestrita a todo tipo de manifestação ou prática religiosa ditas cristãs, como muitas vezes eu vejo que fazem alguns cristãos que empunham firmes a bandeira do “não julgueis!” Aliás, parece que esse era o seu pensamento também em outros casos: “julgai todas as coisas, retende o que é bom; abstende-vos de toda forma do mal” (1Ts 5.21-22); “tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem” (1Co 14.29); “irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos” (1Co 14.20).

Portanto, não acredito que devamos, em nome do amor cristão, suportar calados afrontas ao evangelho ou o cometimento de equívocos grosseiros quanto a sua interpretação por parte daqueles que deveriam ser seus defensores e testemunhas mais fieis. Se nos detivermos em Paulo e seu rigor na pregação do evangelho no que se refere à justificação pela fé, por exemplo, quantas igrejas cristãs ficariam de pé em seu tempo? Se alegássemos no presente, como ele o fez no passado, que o acréscimo de qualquer obra humana à obra divina de salvação do ser humano é o mesmo que afastar-se de Cristo (Gl 5.1), qual seria a reação de grande parte das pessoas?

É mais ou menos nessa direção que já expressei minha discordância com relação ao pastor Silas Malafaia, a quem eu respeito pelo trabalho que realiza, mas de quem discordo, e posso fazer isso, no que tange, por exemplo, a sua forma nem sempre legítima, no meu entender, de combater o que ele entende como sendo algo errado, e quanto a outras questões. Também me distancio, talvez um pouco mais, do pastor Lucinho, outro exemplo, de quem eu assisti um vídeo, recentemente, intitulado “O Evangelho Hardcore”, onde ele mostra, pelo menos é o que parece, que não conhece muito de interpretação bíblica, pois dá à pessoa de Jesus uma interpretação simplesmente surpreendente, que destoa da fé tradicional. A Igreja Encontros de Fé, onde sou pastor, que crê no evangelho da graça de Deus em Cristo e que subscreve a doutrina da justificação pela fé somente, não pode concordar com sua linha teológica. E é isso que me surpreende às vezes, porque vejo pessoas acolhendo teses de pregadores distintos que simplesmente são antagônicas entre si, ou seja, uma combate a outra, ou uma tem um pressuposto bem divergente da outra. Nesse sentido, é impossível aplaudir a ambos quando as opiniões deles divergem nesses temas fundamentais, a não ser que tenhamos dúvidas sobre o caminho a seguir. Bom, aí nesse caso eu posso até compreender! A pessoa está num processo de definição básica de sua fé. Mas a maturidade cristã não me permite ficar como um menino agitado de um lado para o outro; é preciso seguir a verdade (Ef 4.14-15). Confesso que cheguei até a pensar em transcrever a mensagem do pastor Lucinho de alguma maneira – tamanha a minha surpresa com as afirmações que ele fez sobre Jesus a partir da leitura de alguns textos bíblicos –, fazendo a cada frase sua algumas observações pertinentes de modo a clarear a distância teológica que o separa da fé tradicional protestante. Alguém poderia, então, perguntar: mas por que não falar daquilo que nos une ao invés de falar daquilo que nos separa? Bom, a questão é que se seguirmos por caminhos individuais e diversos, dificilmente chegaremos a um lugar comum. Esse é o meu ponto. As pessoas nem sempre têm essa percepção de que, às vezes, pequenas diferenças de compreensão em temas fundamentais da fé cristã podem ter consequências enormes no reino de Deus. Nesse caso da carta aos gálatas que mencionei há pouco, a briga de Paulo era com aqueles que queriam acrescentar à fé a circuncisão para fins de salvação eterna: “se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará” (Gl 5.2). O apóstolo aqui é completamente intransigente no que se refere à salvação: ela se dá somente pela fé em Cristo! (Ef 2.8-9). “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes… Vós corríeis bem; quem vos impediu de continuardes a obedecer à verdade? Esta persuasão não vem daquele que vos chama. Um pouco de fermento leveda a massa toda” (Gl 5.4, 7-9). Ora, quantos são aqueles que hoje fazem a salvação depender de requisitos outros além da fé em Cristo? Imaginem só se ficássemos calados diante de todos os exageros e equívocos que são cometidos em nome da fé cristã. Onde estaríamos hoje? Que tamanho teria essa “massa levedada”, embora ela já seja grande? Não que esse seja o caso do pastor Lucinho. Sei que muitas pessoas gostam dele, talvez por sua capacidade retórica, que acaba despertando uma simpatia específica por sua pregação. No entanto, o conteúdo da pregação é muito importante. Eu diria, na verdade, que a retórica de um pregador não poderia jamais ser separada do conteúdo que ele prega, pois esse conteúdo necessariamente afeta a maneira de apresentá-lo. Penso que se o evangelho se baseia na verdade e no amor, ele deve ser pregado como verdade e em amor.

Portanto, toda a avaliação deve ser feita com o amor cristão. “Se teu irmão pecar contra ti, vai argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano” (Mt 18.15-17). Todo cuidado nesse texto é tomado para que haja uma verdadeira reconciliação e prevaleça a verdade, primeiramente apenas com a presença das partes envolvidas no dilema. Quando isso não é possível, um processo é instaurado com a presença de testemunhas, e assim por diante, até a exclusão final da pessoa, se for o caso. Isso significa que a tolerância não é uma atitude que se impõe à custa da verdade. Voltando à ilustração do cisco, o corpo estranho precisa ser removido para o bem do olho, pois não pertencia originalmente a ele. A permanência do cisco pode causar dor, desconforto, e pode oferecer riscos à pessoa.

Portanto, o que Jesus restringe nesse trecho bíblico é a crítica sem autocrítica. Nossa atitude em relação aos outros deveria ser não a de um juiz ou a de um hipócrita, mas a de um irmão na fé. Crisóstomo certa vez afirmou o seguinte quanto ao pecado de alguém: “corrija-o, mas não como um inimigo, nem como um adversário que exige o cumprimento da pena, mas como um médico que fornece o remédio”. Foi Jesus mesmo quem ensinou que deveríamos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que os outros fizessem a nós (Mt 7.12). Por isso, no meu entender, não há nada melhor do que falar “a verdade em amor” (Ef 4.15)!

Christian
Pr Christian Lo Iacono é teólogo, diretor da Sociedade Bíblica do Brasil e pastor da Igreja Encontros de Fé em Porto Alegre.

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Sobre Anderson Cássio de Oliveira

Líder do ministério Missão Com Cristo, avivalista apologético, trabalha principalmente com ensino, discipulado e serviço cristão, voltados a levar a Igreja do Senhor a um avivamento genuíno (com base nas Escrituras). Administrador do blog de missões - Chamado para as Nações.
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